O fim da recuperação judicial reabre o crédito para a Light, impulsionando um plano histórico de R$ 10 bilhões em investimentos até 2030.
A Light, concessionária de energia do Rio de Janeiro, oficializou sua saída da recuperação judicial ontem à noite, marcando uma nova fase para a empresa. A decisão judicial, embora esperada, representa um divisor de águas crucial para a companhia.
Com a formalização, a Light espera reabrir o acesso a novas linhas de crédito e conseguir uma significativa redução em seu custo de capital, fatores essenciais para viabilizar os ambiciosos planos de expansão e modernização.
Este é o momento de focar no futuro, com a empresa projetando um dos maiores ciclos de investimentos de sua história, totalizando R$ 10 bilhões até 2030, conforme informação divulgada por Brazil Journal.
Reestruturação Financeira e o Novo Fôlego da Light
Desde que entrou em recuperação judicial em maio de 2023, a Light empreendeu uma profunda reestruturação financeira. As principais condições do seu plano já haviam sido cumpridas antes da decisão judicial, incluindo um aumento de capital de R$ 1,5 bilhão e a conversão de aproximadamente R$ 2,2 bilhões de dívida em ações.
Essa engenharia financeira resultou em uma redução drástica da dívida líquida da companhia, que caiu de mais de R$ 10 bilhões para a casa dos R$ 5 bilhões. A alavancagem, medida pela relação dívida líquida/EBITDA, já se encontra abaixo de 3x e a expectativa da gestão é que caia para menos de 2x após a revisão tarifária do início do próximo ano e o crescimento da geração de caixa, segundo o CFO Leonardo Gadelha.
A melhora no balanço já começou a refletir nas avaliações de risco. Em agosto, a agência Fitch elevou a nota nacional da Light de D (nível de default) para BB, com perspectiva estável. Na escala global, o rating passou de D para B-. Gadelha expressou a expectativa de que o spread de novas captações possa cair pela metade, embora a Fitch permaneça mais conservadora, prevendo um custo de financiamento ainda acima da média do setor no curto prazo.
O CEO Alexandre Nogueira celebrou a conquista: “Num momento em que todo mundo só fala de RJ, tem uma companhia importante saindo da RJ – e saindo forte”. A saída da RJ também deve recolocar a Light no radar de fundos e analistas que haviam suspendido o acompanhamento durante o período de crise. “As casas estão retomando a cobertura, e agora começa um trabalho de fazer roadshows para buscar essa reaproximação com o investidor local e internacional”, afirmou Gadelha.
Plano Bilionário para Modernizar a Rede Elétrica
O foco agora se volta para o futuro e para o maior plano de investimentos da história da Light: R$ 10 bilhões até 2030, com a maior parte destinada à distribuição. Somente neste ano, a empresa planeja investir cerca de R$ 1,7 bilhão.
Alexandre Nogueira destacou a urgência desses investimentos. “Nos últimos 30 ou 40 anos, a Light investiu aquém do necessário na sua rede: agora não tem como não recuperar e modernizar esses ativos”, explicou o CEO.
A companhia já demonstrou capacidade de investimento mesmo durante a recuperação judicial, como no caso da Ilha do Governador, onde foram aportados mais de R$ 300 milhões. A região enfrentou problemas críticos com um cabo subterrâneo de alta tensão que liga o continente à ilha, causando grandes interrupções no fornecimento. A Light instalou 160 geradores e conseguiu que equipamentos essenciais, antes fabricados na China, passassem a ser produzidos no Brasil.
O turnaround operacional é um processo contínuo. Nogueira afirmou: “Ainda temos muito a fazer: estamos revendo 100% dos processos e 100% dos sistemas. Só no fim de 2028 vamos conseguir concluir esse trabalho.”
Sustentabilidade da Concessão: Perdas e Revisão Tarifária
Apesar da solução para a questão financeira, a Light ainda tem um desafio significativo a frente: a sustentabilidade econômica de sua concessão. O próximo marco essencial para essa resolução é a revisão tarifária de março de 2027.
Atualmente, a diferença entre as perdas de energia reais e o nível reconhecido pela regulação resulta em uma perda anual de cerca de R$ 1 bilhão no EBITDA da Light. O novo contrato de concessão, que será renovado em 2026 por mais 30 anos, passará a reconhecer as chamadas “áreas de risco”, onde o acesso de equipes é dificultado por grupos criminosos, tornando o combate ao furto de energia e à inadimplência mais complexo.
A Fitch projeta um aumento do limite regulatório de perdas de 43% para 58% do mercado de referência em 2027. Segundo a agência, cada ponto percentual adicional de perda reconhecida adiciona aproximadamente R$ 30 milhões ao EBITDA da distribuidora. Com isso, o impacto das perdas cairia de cerca de R$ 1,2 bilhão neste ano para R$ 620 milhões em 2027.
“Esse tema sendo endereçado vem ao encontro da sustentabilidade que a Light precisa para continuar investindo e modernizando seu ativo”, declarou Nogueira. Outra discussão importante na ANEEL é o reconhecimento anual dos investimentos na tarifa, o que seria fundamental para a Light sustentar seu plano de aportes sem pressionar o balanço.
Perguntas Frequentes
Quando a Light saiu da recuperação judicial?
A Light oficializou sua saída da recuperação judicial ontem à noite, conforme noticiado, após um processo que teve início em maio de 2023.
Qual o plano de investimentos da Light para os próximos anos?
A companhia planeja investir um total de R$ 10 bilhões até 2030, com foco na modernização e recuperação de sua rede de distribuição, sendo R$ 1,7 bilhão somente este ano.
Como a Light reduziu sua dívida e melhorou seu balanço?
A Light realizou um aumento de capital de R$ 1,5 bilhão e converteu cerca de R$ 2,2 bilhões de dívida em ações, o que diminuiu sua dívida líquida de mais de R$ 10 bilhões para aproximadamente R$ 5 bilhões.
O que significa a revisão tarifária de 2027 para a Light?
A revisão tarifária de março de 2027 é vista como crucial para abordar o problema das perdas de energia não reconhecidas pela regulação, que hoje impactam o EBITDA da Light em cerca de R$ 1 bilhão anualmente, buscando maior sustentabilidade para a concessão.
Quais os desafios operacionais que a Light ainda enfrenta?
O CEO Alexandre Nogueira mencionou que a empresa está em um processo de revisão de 100% dos processos e sistemas, trabalho que deve ser concluído somente no fim de 2028, indicando um longo caminho para a total modernização operacional.

